Sexta feira.

Engraçado que a felicidade vem em função da véspera de sábado, e não propriamente do dia de sexta.

Normalmente meu sábado já está vendido: Clara, Bel e Guarani (não obrigatoriamente nessa ordem), porém o caso que vou relatar aconteceu exatamente assim.

Como de costume, tenho algumas pendências para com minha filha, pendências essas que tento sanar nas poucas horas que essa vida maluca me permite dedicá-las as coisas que mais gosto.

Pois bem. Acordo cedo, coloco a Clara no carro e partimos para realizar mais uma de suas vontades. Não preciso andar muito para localizar um grande auto-center.

Ao chegar, sou recebido com muita simpatia, por uma simpática atendente, que me recebe ainda na saída de meu carro:

– Bom dia, em que posso ajudá-lo?

– Preciso falar com o pessoal que cuida da troca de pneus;

– “Esses pneus são aro 15”, afirmou ela com um ar de especialista. Balancei a cabeça concordando com ela, e ainda que não fosse, a convicção dela era tão grande que eu não me atreveria a discordar. PRONTO, ali começava uma experiência que, quase sadicamente, aceitei levar adiante.

Imediatamente ela me perguntou quando foi que eu havia trocado os pneus pela última vez.

– Não troquei, respondi. – O carro já veio com esses pneus.

Recebi um belo elogio, por procurar por novos pneus estando os meus ainda “meia-vida”, como ela os classificou.

– Pode me emprestar a chave? Fiz uma cara de espanto, e ela explicou que precisava colocar o carro no elevador, pra verificar a suspensão. Me levou pra uma sala aconchegante e me mostrou todos os modelos de pneus disponíveis, custos, formas de pagamento.

Nesse momento, já me dividia entre a vendedora e a Clara, derrubando o mostruário de amortecedores, num canto da sala.

Logo chega o orçamento da suspensão. O documento apresentado parecia um extrato bancário, tamanha a quantidade de itens e valores. A quantidade de defeitos e falhas na “estrutura do veículo” como eles me disseram, me pôs a pensar em como eu tinha conseguido chegar até ali com ele.

– E aí, como o Sr. quer fazer?

– O que?, perguntei .

– O pagamento. Como o Sr. vamos realizar uma grande quantidade de serviços, podemos parcelar em 10 vezes.

– Mas não vou fazer esses serviços!

– Bom, disse ela em tom conciliador, posso ver com o meu gerente o que podemos fazer pra facilitar o pagamento dos pneus. Como seria bom pro senhor?

– Não vou trocar os pneus do meu carro!

– Porquê? É pelo preço? Podemos ver outros modelos e…

– Não vou trocar nada. Não estou interessado em serviços pro meu carro.

– Como assim?

- Assim. Não quero nada pro meu carro. Não estou precisando (se bem que, depois de ver aquele orçamento, já não estava tão convicto disso).

- Mas o  Sr. me disse que queria trocar os pneus do carro!

– Nada disso. Disse que queria falar com o pessoal da área de pneus.

- E pra quê você queria isso? perguntou ela já impaciente. Naquela altura da conversa, o “Sr” já tinha desaparecido, juntamente com aquela cortesia comoditizada.

- Sabe o que é, preciso fazer um balanço pra minha filha e queria ver se poderiam me dar um pneu usado.

No final daquele dia, a Clara estava balançando na varanda de casa e eu, fui pro campo, assistir o Guarani, morrendo de medo do carro se desmanchar no caminho.