Pamonhas e Spam
Posted by Jean Carlo Oliveira | Posted in Meus Artigos | Posted on 05-02-2010
Tags:consumidor, email, internet, Spam
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Quem gosta de pamonha? Sabe aquelas coisas das quais a gente não gosta, apesar de nunca ter provado? Pra mim, pamonha é uma dessas coisas.
E do carro da pamonha. Quem é que nunca viu – ou ouviu – aquela Belina 82, com um megafone amarrado no teto e repetindo de maneira à tornar mundialmente famosa a cidade de Piracicaba:
”Pamonhas, pamonhas, pamonhas.
Pamonhas fresquinhas.
É o puro creme do milho.
Vamos chegando vamos levando.
Venham provar essas delícias
PAMONHAS DE PIRACICABA…. etc, etc, etc.”
Quantas vezes sua casa foi invadida por esse agradável som, do carro da pamonha vendendo sua mercadoria.
Da mesma maneira o carro do “troca-tudo”.
Eles aceitavam qualquer coisa: panelas, garrafas de cerveja e alumínio, em troca de picolés e maçã do amor. Pronto. Era só o carro chegar pra molecada da rua sair correndo atrás de qualquer objeto que pudesse servir de moeda de troca. O pior era quando ele parava bem em frente de casa. Eram 10 minutos de megafone.
Da mesma maneira era com o carro do churros, o verdureiro e tantos outros que, nas cidades menores ou mesmo na periferia das grandes cidades, ainda existem (aqui em Campinas eles ainda existem).
E a caixa de correio? Lá em casa é o seguinte: todos os dias chego em casa e vou até a caixa de correio. Encho minha mão de papel. Em 10 segundos seleciono o que interessa, o que parece me interessar e o restante vai pro lixo. Simples assim. Nunca pedi que me enviassem nada, mas já me utilizei de propagandas ali deixadas. Em várias ocasiões aqueles panfletos indesejáveis mataram minha fome com pizzas, lanches e outras coisas.
Minha caixa de email: Recebo em média 30 emails por dia. Alguns de grande importância, outros não. Em 2 minutos seleciono o que me interessa, clico em todos os outros e os envio pra lixeira. Não me gera lixo, na faz barulho e algumas vezes já me trouxeram informações relevantes, como os panfletos de pizza e os picolés do “troca-tudo” em dias de calor.
Quando foi que processaram o “tio” da pamonha? Afinal, ele invade as nossas casas com aquele som repetitivo, aquela publicidade indesejável, tira nossa privacidade e direito de escolher o que ouvir ou não.
E a panfletagem? Alguém pediu pra pizzaria deixar um cardápio em sua porta? E os panfletos dos grandes hipermercados, farmácias, guias de bairro, etc. Ninguém pediu, gera lixo, dá trabalho jogar fora, no entanto, alguém se incomoda tanto à ponto de processar tais empresas, ou porque não criar uma lei proibindo esse tipo de publicidade?
Na visão de um dos parlamentares envolvidos na criação do projeto de lei que visa acabar com o envio de emails não solicitados, “a expedição ao usuário-consumidor de publicidades não solicitadas, invadindo a privacidade de terceiros, de forma claramente anti-social é lesiva ao direito individual”.
Querem falar de invasão de privacidade ou segurança? Não agüento mais as pessoas com rodinho no semáforo. Não respeitam minha vontade, sujam meu carro e podem servir de estratégia para bandidos disfarçados. Será que incomodam somente a mim?
Aquele rodo sujo que passam no vidro do meu carro ainda que eu implore para que não o façam em semáforos me parece muito mais invasivo – Mas não incomoda tanto a sociedade a ponto de estimular uma lei contra esse comportamento.
Quero que coloquem o foco não no panfleto, no rodinho ou no barulho da Belina 82, mas no seguinte ponto:
Tanto o som do megafone como os panfletos são indesejados quando colocados na mesma ótica dos emails. A expressão “emails indesejados” se refere a nada mais que qualquer email não solicitado, normalmente com conotação publicitária.
Nas três situações somos atingidos por publicidade sem nosso consentimento, no entanto, por que o email nos soa como mais invasivo?
Utopia imaginar que essa proibição vai gerar algum tipo de segurança no que diz respeito às pragas eletrônicas. Essas ameaças existem às margens de quaisquer regras. Os emails mal intencionados não serão afetados com essa lei. A lei visa punir justamente as empresas que se identificam. O problema principal não está no envio de mensagens chamadas “maliciosas”, mas no envio de mensagens não autorizadas.
Aos corneteiros de plantão: Não estou defendendo ou condenando a utilização de Spam.
Boa parte da publicidade com a qual somos bombardeados diariamente vem de maneira invasiva e subliminar, porém o email tem algo de especial, de muito privativo, apesar de ser nada mais que uma caixa de correio online.
Por que o email incomoda tanto?
A quantidade.
O internauta brasileiro é o segundo no ranking dos que mais recebem emails, segundo pesquisa realizada pela McAffe. Sem dúvida isso incomoda, e já bastaria para uma atitude no sentido de barrar essa prática. Mas o ponto que quero tocar é outro: A idéia de ambiente individual e seletivo é quebrada na medida em que qualquer pessoa tem acesso à esse ambiente.
Na última semana recebi 28 emails não solicitados, de alguma empresa me oferecendo produtos, serviços ou mesmo conteúdo que não me parecia relevante. No mesmo período recebi 13 panfletos na caixa de correios e mais um punhado nos semáforos – Nenhum deles previamente autorizados.
Quebra do sistema
Podemos considerar as redes sociais como um exemplo de ferramenta de sucesso na utilização da internet no Brasil, e dela retirar lições de como se comporta o usuário.
Qual é o princípio de uma rede social?
Um ambiente onde defino quem acessa o que em meu perfil, onde aceito apenas quem eu quero em meu “espaço” e compartilho informação com quem desejo. Apenas com quem desejo.
Já escrevi em outro artigo, sobre a influência do ambiente em decisões de consumo.
Em uma sociedade as pessoas utilizam o comportamento da maioria como fonte para determinar o “certo e errado”, e logicamente, a internet como meio de relacionamento, entra nesse contexto.
Sendo assim meu ambiente será, obrigatoriamente, composto de itens que exerçam algum tipo de importância e relevância pra mim.
Um exemplo comum: Quem você segue no Twitter?
Invasão
A idéia do spam, muito mais que a chateação de ter de apagá-los, expõe uma fragilidade nesse sistema de rede limitada por meus interesses. Alguém, do qual não obrigatoriamente compartilho interesses, chega até uma de minhas áreas privativas.
Onde foi que cliquei pra receber isso?
Essa é uma pergunta óbvia em um mundo composto de cliques para decisões e permissões.
Qualquer coisa que se movimente sem minha autorização é incômodo, desde o email até poup-up, janelas que se abrem ou qualquer outra ação não solicitada.
O spam, muito mais que amolação, é subversivo, atenta contra o sistema atual de privacidade e limitação de meu ambiente.
Chegamos ao ponto que alguns bytes incomodam mais que uma montanha de papel na caixa de correio, ao menos não incomoda o suficiente para mobilizar o congresso nacional. Isso é no mínimo relevante e o estudo desse comportamento pode ser muito útil para entender o comportamento das pessoas nesse novo cenário.
Esse artigo não tem por objetivo gerar aceitação sobre a utilização de spam ou mesmo a utilidade ou não da lei, mas, mais uma vez, analisar o comportamento das pessoas no uso da internet e assim facilitar o trabalho nesse ambiente.
Só espero que não acabem com o carro da pamonha. Eu não gosto, mas a Clara adora.



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